domingo, 30 de maio de 2010

notícias de além-mar

Ouvi notícias de além-mar. Disseram-me que já não mais esperas-me. Agora padeço. Padeço nas horas gélidas e incontáveis que eu guardava, sempre, todas tão tuas. Não contava eu com tal possibilidade, imaginava ser nosso, e não somente meu, o baú de lembranças que trouxe comigo. Mas, vá lá, não vive-se de lembranças, eu sei bem.

Resta-me agora preencher as horas (antes tuas), recortar as boas memórias do álbum de fotografias e desfazer alguns nós da garganta. Procurarei agora em outros braços o consolo para os meus abraços que ainda buscam o corpo teu. Direi agora para algum outro, qualquer que seja, as palavras que guardei antes a ti e que queimavam no peito, na boca, na língua e se prendiam pelos dentes, lutando para sair.

Farei agora com outro o que tantas vezes falamos em fazer juntos: os passeios, as viagens, os planos de ter filhos e viver na casa de campo. A casa agora resume-se a cinzas, ruínas das minhas doces memórias tuas. Ficas agora com minha última notícia além-mar e os meus votos de felicidades. E caso queiras, quem sabe um dia, responder a esta carta, não envies para este endereço. Eu já não estarei mais aqui.

Sou Ana de cabo a tenente, sou Ana de toda patente,
Ana de Amsterdam

Baseado na obra de Chico Buarque e Ruy Guerra, Ana de Amsterdam.

3 comentários:

Rafael Belo disse...

Um espaço de entrega em tempo de casulos abertos. Parabéns pelo lugar navegador dbjs

Marcello disse...

Ahhh o poeta Chico inspira e transforma poetas.

Beijos moça.

Carol Timm disse...

Ah, Chico também é um dos meus preferidos! Como negar que ele entende bastante do sentimento humano? (Que convenhamos é bem complicado) especialmente de nós, mulheres.

Esse seu texto seu combina com essa canção do Chico: "Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu..."

Obrigada pela visita lá em casa!

beijo,
Carol