quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sobre o tédio

Quem passou? O tempo ou eu? Fui eu que passei pelo tempo ou foi ele que passou por mim? afinal, eu vou embora e ele vai ficar aqui pra sempre... Porque com uma vida tão maravilhosa às vezes nos sentimos como se o tempo estivesse parado, sentado na sala de estar? Com tantos compromissos, tantas horas marcadas, tantas pessoas indo e voltando, tanto o que fazer... como ainda conseguimos sentir o tédio? Que mal será esse? Será que tem remédio? Dizem que o tempo é remédio pra tudo que é ferida, mas, porra, ele continua sentado ali na sala, sem fazer nada! E eu aqui, sem saber se passo ou se espero o próximo trem chegar.

Lembro agora da forma como escreveu Natércia Campos sobre as percepções de uma casa! E com que inigualável maestria ela descrevia cada espaço, cada viga, cada madeira a estalar numa casa. Como eu queria aquele poder de expressão agora. Alguns diziam que era o tédio que fazia a mulher escrever falando como se fosse uma casa. Ai que tédio bom esse! nada melhor do que o tédio para nos fazer escrever. Aliás, desculpem meus amigos escritores, poetas e cientistas que adoram seus trabalhos acadêmicos, mas nós somos mesmo um bando de entediados! Nunca vi alguém que realmente tivesse motivos pra sofrer que não tivesse um minuto de tédio para escrever sobre as suas impressões mundanas. Quem tem amor por esse ofício acaba arranjando alguma questão existencialista sobre a qual possa escrever, nem que sejam duas míseras linhas. Ai, o tédio! O que seria de nós se não fosse esse vazio na alma e o tempo ali sentado com cara de sono...

Um comentário:

Dário disse...

O Rubem Alves diz que ostra feliz não faz pérola. Acho que as vezes precisamos de um pouco de tédio mesmo. Se estamos muito felizes não precisamos escrever. Viver já basta.
Aí se cria aquele vazio. As personas não dão conta do expressar-se. O sentido... parece que está lá no fundo. E a água pode estar tão turva que não conseguimos enxergá-lo. Daí a mudança. Água parada só cria doença. O rio que corre é a ilustração da saúde.
Penso que o vazio que se cria em meio a esta tempestade (ou terral) é o espaço necessário para que a alma se expresse.