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domingo, 17 de outubro de 2010

Diga "olá" para o meu novo eu

Sinto dizer, querido, o tempo passou para nós. Cá estamos, lendo os nossos livros, ouvindo sempre os mesmos discos. E penso comigo mesma: "será que ainda faço o seu estilo?". Quisera eu poder dizer que ainda poderíamos pensar em possibilidades, mas certas coisas não acontecem quando não devem acontecer. Simplesmente isso. Eu poderia ter ligado, eu poderia ter dito o que pensava realmente. E talvez nós ainda estivéssemos aqui, em vez dos cacos que sobraram dos sonhos que habitavam este apartamento. Eu queria ter estado aí e eu não teria deixado que repousassem sobre o seu rosto as marcas desse tempo. Resta-nos agora dizer adeus ao que fomos um dia, a vida deixa marcas que nos modificam, impossível não sentir. Diga "olá" para o meu novo eu, esta agora é a imagem que deve ficar na sua mente até que nos vejamos um outro dia, num tempo desses qualquer. Guarde em você o que há de bom em mim. Eu não ousaria pedir que você me esquecesse.


domingo, 30 de maio de 2010

notícias de além-mar

Ouvi notícias de além-mar. Disseram-me que já não mais esperas-me. Agora padeço. Padeço nas horas gélidas e incontáveis que eu guardava, sempre, todas tão tuas. Não contava eu com tal possibilidade, imaginava ser nosso, e não somente meu, o baú de lembranças que trouxe comigo. Mas, vá lá, não vive-se de lembranças, eu sei bem.

Resta-me agora preencher as horas (antes tuas), recortar as boas memórias do álbum de fotografias e desfazer alguns nós da garganta. Procurarei agora em outros braços o consolo para os meus abraços que ainda buscam o corpo teu. Direi agora para algum outro, qualquer que seja, as palavras que guardei antes a ti e que queimavam no peito, na boca, na língua e se prendiam pelos dentes, lutando para sair.

Farei agora com outro o que tantas vezes falamos em fazer juntos: os passeios, as viagens, os planos de ter filhos e viver na casa de campo. A casa agora resume-se a cinzas, ruínas das minhas doces memórias tuas. Ficas agora com minha última notícia além-mar e os meus votos de felicidades. E caso queiras, quem sabe um dia, responder a esta carta, não envies para este endereço. Eu já não estarei mais aqui.

Sou Ana de cabo a tenente, sou Ana de toda patente,
Ana de Amsterdam

Baseado na obra de Chico Buarque e Ruy Guerra, Ana de Amsterdam.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Carta náufraga

Queixo-me do tédio.
Escrevo a ti uma carta que está fadada a permanecer quieta, silenciosa, queimando no baú das emoções. Se bem conheço meu próprio hábito de fazer confidências às gavetas, esta carta permanecerá aqui, comigo.
Sei que é próprio dos românticos escrever cartas que jamais enviarão, mas esta está aqui apenas para testemunhar mais um naufrágio.
Esta noite foi mais uma daquelas noites em que o sono escapou-me, o riso tomou-me de repente e as horas passaram devagar.
No passar das horas pensei em escrever-te algumas linhas, cheguei a ouvir as músicas que escutávamos juntos, rabisquei alguns versos bobos, românticos... devaneios meus.
É estranho dizer isso, mas não sei se ainda há realmente alguma forma de romantismo em mim. Talvez haja aqui alguma coisa meio despeitada, que recusa-se a calar-se, que torna-se louco, insurgido, impuro talvez.

(...)