sábado, 19 de fevereiro de 2011

Felicidade


Imagem DevianArt

Toc-Toc. Felicidade bate à porta. E antes que eu possa abrir, ela entra por si só. Como gato folgado, esparrama-se pelo sofá da sala, invade os quartos, inscreve-se nas paredes da casa. Assusto-me com tamanha habilidade em tornar-se tão fluida e misturar-se à cor da minha pele e à água que bebo. Felicidade, quando chega, desarruma a casa, balança as roupas no varal. Mas felicidade é fugidia, só mais um lance de escadas. Felicidade também serve pra mostrar que tudo na vida passa. Vai e vem, como onda no mar. E ninguém vive só de água e sal. Felicidade é dosagem alta, altamente recomendada e, como adrenalina, acelera o coração. E os olhos brilham, as mãos suam, as pernas tremem... é que diante da felicidade a gente não nota o valor das coisas, só reclama de barriga cheia. Mas eu, eu aproveito sim. Porque sei que felicidade é onda, felicidade muda as cores da casa, muda o sabor das coisas e eu... deixo ela entrar e esparramar-se onde quiser porque ela sim é soberana, rasgada e indecente. Felicidade floresce na sacada, é brisa no mar. Felicidade é quarto de hora e eu sou só instante.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Salve, Palavra!

Palavra dita,
Palavra escrita,
Palavra clareia.
Palavra gravada na pedra,
Plantada na terra,
Palavra que germina,
Que semeia.

Salve, Palavra!*
Que sem ti meus versos não são
E meus pensamentos vãos,
Como brumas,
Vão com o vento.

Salve, Palavra!

Palavra-réquiem,
Palavra que salva,
Que me permeia.
Palavra-loucura,
Palavra-lisura que me norteia.
Palavra-chave,
Coração-abismo
Pra palavra que em mim
Incendeia.


*O título refere-se à obra "Ave, Palavra!" de um dos maiores nomes da literatura brasileira (Guimarães Rosa).

P.S.: Ainda estou respondendo aos comentários da postagem anterior. Abraços.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Necessidade

Durmo, sonho e acordo poesia. Alimento-me de palavras. Uso-as, visto-as, porque existem aquelas que cabem exatamente à forma do meu corpo. E, em mim, as palavras tomam suas próprias formas, os versos fazem-se em minhas linhas como se fosse eu um modelo. Usam-me, penso agora. Recordo-me de as palavras chamarem-me à meia-noite, interromperem meu sono, pronunciarem-se em meus sonhos, obrigando-me a escrevê-las. Relação de dependência ou simbiose? Às vezes elas pedem-me sutilmente que eu conte-as, que eu escreva-as, porque sem mim estes versos não existem e eu... preciso deles para sobreviver.



Imagem da web

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Poesia essencial


Sinto como se brotassem poesias das pontas dos meus dedos e as palavras pudessem, indefinidamente, derramar-se dos meus olhos, como se pudessem dar a cor dos meus cabelos e o viço da minha pele. Sinto como se cada gesto meu fosse como uma poesia em movimento, como se cada verso fosse a minha própria "prosa de vida" e como se cada sonho meu fosse pouco mais do que a minha poesia essencial a mostrar-se inconscientemente dos olhos para dentro.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Receita para roubar um coração



 
"Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa. Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado. Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente."

Luis Fernando Veríssimo

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Primavera em Paris

Conta-se uma história que havia um deficiente visual pedinte, com um boné aos seus pés na praça de Paris com um pedaço de madeira escrito com giz branco: "Por favor; ajude-me, sou cego!" Um publicitário que passava por aquela praça viu umas poucas moedas no boné, aproximou-se dele e sem pedir licença pegou o giz e reescreveu no o anúncio, colocou o pedaço de madeira aos pés do deficiente e foi embora. No final da tarde, o publicitário voltou a passar em frente àquele pedinte e notou que seu boné encontrava-se cheio de dinheiro, em contrapartida aquele mendigo reconheceu os passos do publicitário e lhe perguntou se havia sido ele quem reescrevera seu cartaz, querendo saber sobretudo o que ele escrevera. O publicitário, então respondeu "Nada que não esteja de acordo com seu anúncio, entretanto com outras palavras." Sorriu e continuou seu caminho... O pedinte, nunca soube o que estava escrito, mas o novo cartaz dizia: "Hoje é primavera em Paris, e eu... não posso vê-la".

Retirado do blog: http://www.diariodeumnetworker.com/
Conteúdo parcial, sem modificações.

Imagem Dreamstime


Então, escafandristas, qual a moral da história pra vocês?




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Caixinha de música

Imagem da web

"Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só".

Adélia Prado


Talvez eu precise de mais amor. Como se amor-próprio não bastasse. A gente não vive sozinho, não vive como no livro de García-Marquez. A gente quer mais. Talvez eu queira mais agora, agora mesmo. Não quero tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Não, quero devagarzinho. Quero amor tranquilo, sonolento, meio manhoso. Quero ser a bailarina da caixinha de música, com um par perfeito. Um par perfeito, mais amor, amor tranquilo, música. Talvez eu precise de mais amor... ninguém vive mais cem anos de solidão.


P.S.: Não esqueci dos comentários do post anterior, ainda estou respondendo um a um, ok? Boa noite!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Meias-Palavras

Imagem de Francine Van Hove


Acordo às três. Telefone toca, engano. Falo coisas sem sentido, invento sentido pro que não tem. E escrevo. Faço o que de melhor sei fazer. Misturo palavra e ânsia. Talvez a ânsia tenha criado as palavras. Dizem os especialistas que falar é necessidade de se expressar o que deseja. Mas eu calo. Calo quando deveria falar, calo enquanto desejo ainda. Calo pra não deixar coisas ditas em meias-palavras. Melhor é fazer silêncio do que ser explícita. Mulher explícita não tem graça, dizem que a graça da mulher está no mistério. Sinto que minhas poesias tem acabado assim, meio sem graça, meio sem sentido, como que ditas em meias-palavras. E adormeço então, depois de muito pensar, depois de calar e escrever, depois de fazer mistério, graça, silêncio, prosa e poesia.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Revelar


Revelar-se
E dançar na primeira hora do dia.
Banhar-se com as cores do sol,
Mostrar-se em cada gesto
De profunda alegria,
Celebrando os mistérios da alma,
Da alma que dança,
Da alma que brilha,
Da alma que revela-se.
Vibrar num ritmo natural
E revelar-se pulsante,
Num movimento,
Num tempo
Quase que ideal.



Só para atualizar. Boa semana a todos!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Verdades & Mentiras





"Tengo el presentimiento de que cuando hablo de mí misma, empiezo involuntariamente a mentir."
-Edith Piaf.





Coleciono mentiras. Minto com uma facilidade e uma habilidade que, às vezes, chego a eu mesma crer naquilo em que sei ser mentira. Minto sobre a forma como ajo quando vejo-te e finjo não ser a ti a quem endereço os meus versos. Minto compulsivamente sobre não importar-me com quem andas ou o que fazes. Minto da hora que acordo à hora de dormir. Minto e sinto naquilo que minto o peso das minhas próprias verdades. Elas retornam, como fantasmas que habitam uma casa. As minhas verdades, tão grandes verdades, tão impronunciáveis. Sinto-as pesando sobre as minhas costas, como se contassem a si mesmas no brilho dos meus olhos, no cheiro da minha pele, no som do meu sorriso, no movimento dos meus quadris. Coleciono as minhas pequenas mentiras, esmagadas sob o peso das minhas tão grandes verdades. E coleciono minhas mentiras como quem coleciona borboletas, como se elas pudessem fazer-se livres a qualquer momento.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sertão



Simbora, amô,
Que lá no sertão tudo é mió.
Bota teu vestido de frô,
E vamo vivê de amô,
Que lá no sertão inté a lua é maió.
E se nóis cansá,
Nós inventa o que fazê,
E se carece, nóis inventa até
ôtro jeito de amá,
de amá inté o sol nascê.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tarde de verão


A Escafandrista



Tomou um último gole de vinho. Ouvia-se o coração bater ao longe, como se dentro do peito soasse um relógio antigo, badalando, como um sino de uma igrejinha daquelas no interior. O peito era cela em que rebelava-se, prisioneiro, um coração desejante. Apesar de tudo, restava ainda, no terreno fértil das lembranças, no gosto doce da boca, a esperança que banhava aquela tarde com as cores de um verão quase febril e passageiro.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sinceridade Profunda


"Sob o Céu, somente o indivíduo possuidor da lealdade e sinceridade mais completas é capaz de desenvolver totalmente sua verdadeira natureza. Quando é capaz de desenvolver totalmente sua verdadeira natureza, é capaz de desenvolver totalmente a natureza de outros indivíduos. Quando é capaz de desenvolver totalmente a natureza de outros indivíduos, é capaz de desenvolver a natureza de todas as criaturas. Ao fazê-lo, é capaz de tomar parte nas funções de nutrição e transformação do Céu e da Terra e se torna um com o Céu e a Terra".

Confúcio, passagem retirada do livro I Ching, hexagrama Sinceridade Profunda, pág. 466.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Asas



Procuro as palavras-chave dos meus versos, os versos que eu mesma criei, os versos que me colorem a alma, os versos cuja vida fui eu que dei. Foram tantas palavras escritas e depois de tantas coisas ditas já não sei quem fez o quê. Confundo-me com os meus versos, sem saber se foram coisas que disse ou só pensei. Eles conversam comigo nas noites sem dormir e quando tento fugir, eles vêm. Pergunto a eles tantas coisas quando vêm me visitar e escrevo das minhas dúvidas, da minha essência, das minhas angústias e eles respondem tantas coisas que nem sei. São tantos versos, são tantas dúvidas e as minhas asas, eu me pergunto, onde deixei?


A Escafandrista.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um violino no mar

Hoje perguntaram-me qual instrumento musical eu seria e respondi:

"Um violino".

Independente do significado que este instrumento possa ter, respondi que gostaria de ser um violino porque "reúne a delicadeza que é própria do instrumento à uma forte presença". As pessoas revelam-se em suas palavras, amigos escafandristas, e eu gostaria de dividir isso com vocês. Quais instrumentos vocês seriam?


Imagem da web

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dos versos gravados na pele

O gosto de estrelas na boca,
(Céu da boca)
Versos gravados na pele,
Por baixo da roupa,
Versos em forma de sinais.
Eu escrevo no teu corpo,
Nas linhas do teu rosto,
As poesias ideais.
Só queimam em nós as palavras não ditas
E as palavras escritas são como as flores
Que nasceram em nossos quintais.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Reencontros

Vens chegando, voltando para casa,
Com a cama arrumada ela te espera.
Vens chegando, malas pesadas, cabelos ao vento,
E ela correndo, peito aberto, quase morrendo,
Porque saudade se não mata, dilacera.

Digo que amor que é amor é cego,
Também é surdo e tudo o mais,
Que quando se tem saudade
Ouve-se o coração bater, 
Soar com os sinos das catedrais.

Mas quando estás de volta ao lar,
Ela abre os braços pra te receber,
Mata as saudades que estavam o peito a romper
Feito rio cheio transbordando no mar,
No mar dos olhos dela ao te ver.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Das minhas inspirações

Imagem de Francine Van Hove



Tem chovido bastante nos últimos dias e eu que adoro chuva tenho estado um tanto mais inspirada a dormir e escrever, dois vícios. É que quando chove, tudo corre bem. Chuva lembra-me cama quentinha, café quentinho, cheiro de planta, cheiro de terra, a casa da infância, os sonhos que tinha e que não mudaram depois que cresci. Chuva é bom, chuva lava a alma. No meu caso, chuva lava a alma, alegra, faz esquentar a cama, o café, ficar em casa e jogar conversa fora. Ah, claro, chuva também faz escrever poesia. Faz até escrever em forma de prosa, que eu confesso que não sei bem, talvez minha melhor expressão seja através de versos. Chove aqui dentro agora, no meu escafandro, no meu coração... e eu adormeço calmamente. Sempre rezo antes de dormir, mais agradeço que peço, mas não esqueço de pedir que não pare de chover... lá fora e aqui dentro também. Boa noite a todos que aqui mergulharem.

P.S.: Porque também é bom mergulhar com chuva.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Terra & Chuva

Imagem de Francine Van Hove


Desejava agora ser onda no mar,
Ser terra molhada de chuva
E embebedar-me de amores uma vez mais.
Desejava ser palavra cantada,
Poesia alada,
Barco queimando no cais.



domingo, 9 de janeiro de 2011

Esquecimento

Imagem de Francine Van Hove


Nada mais sei do que vivi,
Dos dias que carrego no corpo
Das poesias que trago na memória,
Só lembro do que escrevi.
Nada mais recordo do que passei,
Se chorei, se amei,
De nada lembro mais.
É que hoje acordei uma incógnita,
Poesia concreta, insólita,
Esquecida de tudo o que deixei para trás.

Só para atualizar mesmo, ando meio sem inspiração para as poesias. Uma ótima semana a todos e aos novos seguidores, muito obrigada por mergulharem aqui.